💓💓💓💓💓 Excelente
“Isto não são propósitos. É só a vida normal.”
Soul o lançamento mais recente da Pixar é a comprovação de um processo em que a Pixar já vem com sucesso aplicando desde Toy Story 3, quando passou a transformar suas brincadeiras de universos inanimados em histórias de cunho cada vez mais pessoal. Muitos falam de um desgaste em sua “fórmula”, nas quais as premissas sempre colocavam seus protagonistas – aqui os personagens, seres não vivos humanizados – para voltarem ao aconchego do mundo aos quais eles pertenciam, claro passando por uma jornada de transformações seja pessoais, de caráter, ou do mundo a sua volta. Mas na verdade essa formula é somente a base da receita de um grande bolo que hoje mudou de forma e é muito bom que tenha mudado, o que no ver da pessoa que escreve foi um salto enorme e garantindo um novo “sabor”. A Pixar quando começou foi como um estúdio que testava os limites da tecnologia de animações 3D, à frente de contar as suas histórias, e nos dias de hoje com a máxima dessa tecnologia já alcançada, o estúdio muda seu propósito e não de modo irônico é Soul que falará justamente sobre isso: a não possibilidade da racionalização de um “propósito” que é o que consta na criação do universo da vez.
Em sua estrutura o filme irá te vender a logística do mundo das almas de uma forma que é bastante semelhante a outros filmes da primeira fase do estúdio como Monstros S.A, também dirigido por Pete Docter, no que busca te prender mais pelo senso do fascínio aos elementos em que estão no entorno da história (e do universo) do que pela intimidade aos personagens que aqui irão aparecendo conforme os desdobramentos narrativos apresentados pelo roteiro. A grande diferença é que Soul reserva um tempo para que uma base dramática seja inserida no núcleo do protagonista no inicio do filme, antes de manda-lo para interagir com um novo mundo. Note que aparentemente isso serve para promover a formula do “retorno para casa” quando o protagonista estivesse em forma de alma e precisasse correr literalmente contra o tempo para descobrir uma forma de voltar para casa, para a sua vida normal, através das brechas e das explicações sobre o funcionamento do universo, antes que ele perdesse a então aparente oportunidade da sua vida como músico.
Perceba que existe um jogo de aparências aqui. As brechas dadas para a troca entre os corpos humanos e as almas são de maneira calculadas para manter um certo mistério sobre as origens de uma função em especifico não explicada na construção didática de universo. Essa quando revelada ressignifica todo o didatismo de aparência racional ao abstrato como é um costume da Pixar adotar e o converter para literalmente algo que tenha mais alma, que é o que vem sendo essa nova Pixar, mais íntima e mais emocional. Dizemos aqui de um ambiente que na nossa imaginação é primordialmente espiritual, ou seja, que não há uma explicação plausível para que exista, então essa formulaica de subversão era necessária para essa compreensão afinal a Pixar ainda é um estúdio cuja prioridade é o publico infantil, que irá conseguir se divertir especialmente se essas brechas permitirem que o exercício da imaginação seja feito.
A comédia ela entra como um elemento importante aqui, e é algo que vem sendo característico nessa nova fase do estúdio, em que situações cômicas são utilizadas como sendo sua base explicativa, o que torna os preceitos conceitualmente menos complicados de se entender, mas não menos complexos. E funciona muito bem, pois não chega a ser tão engraçado, mas é a comédia que dá a leveza do ar rotineiro que é necessário para que a virada de ressignificação ser sentida. Então pode se dizer que Soul se explica no aberto porque essa é nossa relação com o mundo sobrenatural, um medo do desconhecido sobre essa noção de se ter um propósito de vida, se estamos predestinados a fazer aquilo em que vivemos desde sempre ou se vamos adquirindo isso conforme vivenciamos a nossa vida. É nessa ambiguidade em que as interações de Joe e 22 se sustentam, entre atritos e compaixões, cada um descobrirá para que lado essa sua jornada de busca, de propósito os levará. E é aí que Soul encontra sua alma e passa a adentrar definitivamente no lado mais emocional e pessoal da coisa.
Nesse ponto, Docter não tem o mesmo domínio ou talvez honestidade que possuiu em Divertida Mente, ou que seus companheiros Lee Unkrich e Dan Scanlon tiveram em seus respectivos Viva a Vida é uma Festa e Dois Irmãos. Existem artifícios estruturais muito perceptíveis e bastante comuns que nos levam essa construção a um lado mais apelativo da história, embora exista ainda uma sensibilidade surpreendente no tratamento musical das etapas de jornada. A brincadeirinha existente no título remetente ao estilo musical está intrínseca como complemento narrativo a todo momento. A trilha da dupla Atticus Ross & Trent Reznor possui ampla participação nesse processo comunicativo do filme e é talvez uma das composições mais versáteis que a Pixar já apresentou, sendo responsável inclusive para o roteiro nunca cair nesse território meloso artificial e transmitir sua ideia dentro daquele didatismo sensorial de forma mais efetiva para todos os públicos.
Resumindo: Soul o começo dessa nova fase mais intimista da Pixar seja o titulo mais “especial” do estúdio, o que não deixa de ser até satisfatório, especialmente porque ele confirma essa nova identidade do estúdio que por meio de um processo bem aberto e didático que questiona o proposito se assumindo em um novo estilo que não precisa se provar mais em lados técnicos da animação 3D – que se ainda tem algo a evoluir é quase nada – e sim no lado humano que vem cada vez mais pode se superar a cada novo lançamento do estúdio.
Soul (Idem |
EUA, 2020)
Direção: Pete Docter, Kemp Powers
Roteiro: Pete Docter, Mike Jones, Kemp Powers
Elenco: Jamie Foxx, Tina Fey, Graham Norton, Rachel
House, Alice Braga, Richard Ayoade, Phylicia Rashad, Donnell Rawlings,
Questlove, Angela Bassett, Cora Champommie, Margo Hall, Daveed Diggs
Duração: 96 minutos


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