Transformers é uma franquia antiga e que recusa a morrer. O fascínio
pelos robôs gigantes que se transformam, na maioria das vezes em carros
(dinossauros também), é uma fonte inesgotável de brinquedos, animações, filmes e quadrinhos que, ao longo das décadas,
desde seu surgimento no segundo semestre de 1984 com uma minissérie
em três episódios, estabeleceu um vastíssimo
universo com centenas de personagens. War for Cybertron – não
há relação com o videogame homônimo – é apenas a mais recente
incursão animada da franquia, desta vez tendo o onipresente Netflix como canal de distribuição.
A Série animada em computação gráfica ao que parece
tem como objetivo fazer um reboot na classica animação dos Transformers, ainda
chamada G1, recontando o início de tudo, como a guerra começou (alias não
há muito o que mostrar), ainda em Cybertron, pois o primeiro episódio (ou
temporada) é composto de 6 episódios e batizada de 'O Cerco" começa
basicamente como começa a série original, com o planeta dos robôs já em ruinas
em razão de uma guerra civil entre os Decepticons liderados por Megatron e dos
Autobots liderados por Optimus Prime.
Porém diferente dos no máximos 5 minutos da série
original em que esse período ganha destaque na G1, War for Cybertron nem
tem muita pressa de tirar os robôs de seu planeta e espalha-los pela galáxia
principalmente na Terra, muito pelo contrário esse plano nem sequer existe na
cabeça de Prime mas vai ganhando corpo na medida em que a temporada progride.
Essa progressão por mais curta que sejam os episódios não acontece muito
rapidamente vale dizer. Os roteiros de George Krstic são substancialmente expositivos
(não chega nem próximo ao nível irritante de Castlevania, porém) porque o
escritor tenta inserir o máximo possível da mitologia dos personagens em poucos
minutos, abordando as causas da guerra civil, a suposta traição de Alpha Trion
por Megatron, a existência dos misteriosos Guardiões, a busca por cubos de
Energon e, depois, pelo Allspark, uma antiga conexão entre Megatron e Optimus
Prime, a estrutura restante do planeta, com robôs não afiliados a qualquer lado
como Bumblebee e outros que se aproveitam da situação caótica para reinar no
submundo como Soundblaster e assim por diante.
Em outras palavras, Krstic não é de inventar muita moda, apenas preferindo
“organizar” a estrutura da narrativa picotada clássica em um conjunto que faça
sentido e que funcione muito mais como um preâmbulo do que como uma temporada –
ou mesmo um capítulo – realmente fechada. E nem sempre ele acerta, já que os
diálogos explicativos são constantes e tomam grande parte da minutagem,
deixando a ação em segundo plano. Além disso, quando a pancadaria chega em
erupções esporádicas e curtas, ela é normalmente muito burocrática, sem maiores
arroubos imaginativos do que alguns tiros e explosões aqui e ali.
Assim como o roteiro,
a direção de arte também não inventa e caminha pela recriação dos clássicos
personagens como eles sempre foram, apenas trabalhando uma abordagem bem mais
“vivida” do que o costumeiro, com cada robô tendo marcas claras de desgaste,
seja por trabalhos escravos pré-guerra como Megatron salienta diversas vezes,
seja pelos efeitos devastadores da guerra civil em si. Além disso, o visual é
sombrio, realmente canalizando um planeta pós-apocalíptico, com momentos de
ação que não escondem a violência tanto em sequências de tortura cibernética
explícita, como com execuções a queima-roupa ou feridas expostas e
incandescentes na carroceria dos personagens, incluindo membros decepados e
assim por diante. Claro que o fato de eles serem robôs e não sangrarem ou terem
tripas para serem expostas retira boa parte do impacto, mas, mesmo assim, é uma
forma interessante e bem mais realista de lidar com um conflito destrutivo
nesse escopo.
A direção
de Takashi Kamei, porém, talvez presa à quantidade substancial de momentos
de “explicação interminável” e de “repetições para quem não entendeu”, peca por
manter a temporada lenta e até cansativa às vezes, por mais curta que ela seja.
E não ajuda em nada que os trabalhos de voz, algo absolutamente espetacular na
animação original, sejam praticamente genéricos e fungíveis, todos em tons
ameaçadores do lado dos Decepticons e todos suaves e claros no lado dos
Autobots, mas quase sempre com aquela reverberação metálica típica que, aqui,
talvez por ser muito evidente, parece ser o que acaba por tirar os timbres das
vozes do elenco. É quase como se todos os personagens fossem dublados pela
mesma pessoa, mas sem que essa pessoa tivesse sequer um milésimo da versatilidade
de nomes como Peter Cullen e Christopher Collins e dos
gênios Don Messick e Frank Welker.
O “primeiro capítulo” de War
for Cybertron tem sem dúvida muitos problemas que, espero – mas duvido
– sejam corrigidos ou atenuados nos dois capítulos posteriores. No entanto,
como recomeço de franquia imaginado talvez como ponto de entrada para novos e
futuros fãs, a animação cumpre sua função básica como a minissérie original
também cumpriu. Ainda que longe de ser mais do que os olhos veem, há inegável
charme nessa abordagem sombria e violenta dos robozões transformadores em
(re)começo de jornada.
Direção: Takashi Kamei
Roteiro: George Krstic (baseado em história de F.J. DeSanto e George Krstic)
Elenco (vozes originais): Jason Marnocha, Jake Foushee, Linsay Rousseau, Frank Todaro, Keith Silverstein, Edward Bosco, Bill Rogers, Todd Haberkorn, Mark Whitten, Georgia Reed, Joe Zieja, Shawn Hawkins, Brook Chalmers, Jimmie Stafford, Rafael Goldstein, Aaron Veach, Kaiser Johnson, Brian Robert Burns, Alexander DiLallo
Duração: 142 min. (seis episódios)


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