É inevitável as comparações entre episódios, principalmente depois
da perfeição que foi As I Have Always Been e que teria que
carregar o ônus de ser comparado a esse episódio e provavelmente perderia a
peleja. Se, de fato, Stolen perde
– e ele perde mesmo, não tem jeito -, pelo menos isso acontece com grande
dignidade, pois o capítulo é o primeiro dos até agora três episódios que não
recorrem ao artifício das brincadeiras com décadas passadas (descontando o
anterior, obviamente) que realmente merece destaque. Inclusive, Stolen é
uma continuação direta da história formada justamente nesses outros episódios
“menos bons” da temporada, Adapt or Die e After, Before,
além da coda em As I Have Always Been, que prepararam o terreno
para Nathaniel tornar-se o grande vilão dessa estirada final.
E o grande e justificado medo é de que ele não
funcionasse como uma espécie de "Final Boss" de minha parte
sabia que seria tranquilo e não haveriam grandes problemas, o que foi dito e
feito e que mesmo não despontando com o personagem mais esquecível da
série com sua postura almofadinha, seu controle dos poderes de Daisy e também
do assassinato de Jiaying em frente a sua futura filha o colocam como uma
ameaça que é perfeitamente crível especialmente se levarmos em conta o fato de
que ele nada mais é do que um peão de Sybil a líder dos Chronicons que
ainda pode voltar nesses últimos episódios, não permanecendo para sempre
somente como a versão tecnológica de um oráculo.
Outra vantagem do lado vilanesco da história é que a versão mais nova de ninguém menos do que John Garrett é recrutada por Nathaniel para absorver o poder de teletransporte de Gordon, valendo notar que o saudoso Bill Paxton, que vivera maravilhosamente bem o personagem na série, é substituído por seu filho James Paxton que, por seu turno, faz uma excelente imitação daquele jeito debochado e falastrão de seu pai como Garrett. Uma bela homenagem, não é mesmo? Com isso, qualquer dúvida sobre a função em si de Nathaniel é dissipada, já que ele tem ao seu redor um time potencialmente muito interessante que se conecta umbilicalmente com a história da série como um todo, ainda que Kora, devo confessar, não tenha ainda dito realmente a que veio, talvez porque o espaço aberto para Dianne Doan até o momento tenha sido diminuto.
Mas os grandes destaques do episódio
foram os momentos mãe e filha entre Jiaying e Daisy, começando pela forma como
as duas se veem pela primeira nessa linha temporal, passando pelo terno momento
em que Daniel Sousa, mais uma vez demonstrando ser o personagem mais prestativo
que já existiu em qualquer série de TV, coloca-se à disposição de Daisy para ajudá-la
a encarar a mãe e, claro, a grande e emotiva cena em que somos relembrados da
qualidade do trabalho dramático de Dichen Lachman e também do quanto Chloe
Bennet cresceu como atriz ao longo desses anos todos. No
entanto, de maneira muito parecida com Adapt or Die, o episódio é
bastante tumultuado, com diversas linhas narrativas acontecendo ao mesmo tempo
sem que Garry A. Brown tenha a mesma elegância
que Elizabeth Henstridge demonstrou em sua
estreia como diretora na semana passada. O resultado disso é que mãe e filha
têm pouco tempo de tela e uma resolução trágica talvez apressada demais que, se
tem uma vantagem, é servir de prévia do que pode vir por aí em termos de
demonstração de poderes por parte de Daisy.
Quando digo que o episódio foi tumultuado, isso não necessariamente é um aspecto negativo por todo o tempo. O roteiro talvez pudesse ter economizado em diálogos e no entra-e-sai de Afterlife, potencialmente com uma decupagem mais precisa pelo diretor, mas a verdade é que Stolen conta uma história típica de ação de Agents of S.H.I.E.L.D. que tem diversos pequenos momentos cuidadosos e preciosos. Vemos a versão jovem de Gordon ganhar bom destaque para tornar sua morte pelo menos um pouquinho mais importante (pessoalmente, preferia que ele tivesse sobrevivido, pois não vi valor no que foi feito com ele), vemos Yo-Yo finalmente usar com segurança seus novos poderes e, por último, Deke e Jemma ganham alguns segundos para abordar Fitz.
Esse último aspecto certamente prepara a volta do personagem (o ator, quando da renovação surpresa da série, já tinha outro compromisso e não pode participar da produção) e aborda não só a falta de comunicação dele de onde ele estiver, o que pode prenunciar outra tragédia, como também algo que até agora não tinha ficado claro para mim: que Jemma achava que ele estava fazendo o Z1 pular no tempo atrás dos Chronicoms. Isso nunca havia me passado pela cabeça, já que sempre considerei que o Z1 estava sendo “puxado” inadvertidamente pelos seres sintéticos do futuro.
Seja como for,
agora o tabuleiro para a estirada final (nossa, como me dói escrever isso…)
está arrumado. O que realmente falta, agora, é um embate extremamente sísmico
entre Daisy e Nathaniel (a casa tem que literalmente cair!), o retorno triunfal
de Fitz (porque eu acredito que ele está vivinho da silva), um fim honrado para
John Garrett (porque o personagem é demais) e, claro que os casais da série
acabem sorrindo e abraçados seguindo em direção ao sol poente…
Agents of S.H.I.E.L.D. – 7X10: Stolen (EUA, 29 de julho de 2020)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Direção: Garry A. Brown
Roteiro: George Kitson, Mark Leitner (baseado em história de Mark Linehan Bruner)
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wen, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, Natalia Cordova-Buckley, Jeff Ward, Enver Gjokaj, Tobias Jelinek, Thomas E. Sullivan, Dichen Lachman, Dianne Doan, Byron Mann, Fin Argus, James Paxton
Duração: 41 min.


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